AMAZÔNIA, da negligência à exploração

Discussão sobre os impactos na floresta reacende preocupação com o futuro


Cerca de 7,7 bilhões de pessoas vivem hoje na Terra, e a expansão iminente da população vem sendo analisada perante o impacto que pode gerar em relação aos diversos sistemas que compõem a vida do nosso planeta. O clima está aquecendo, espécies estão extintas ou correm este risco, os recursos naturais estão sendo desperdiçados e muitos de nossos ecossistemas estão sofrendo enorme estresse. Apesar de diversas estatísticas apresentarem que a saúde do nosso planeta sofre, por outro lado também há boas notícias. Os dados apresentados por diversas instituições indicam que a fome está em declínio, a inovação tecnológica tem resolvido diversos problemas insolúveis até então e as pessoas em todos os lugares estão buscando formas mais sustentáveis de viver. Contudo, ainda há um longo caminho a ser percorrido.


Essas tendências são importantes para que se pense no futuro. Em 2030 estima-se que serão 8,3 bilhões de pessoas em todo o mundo, com expectativa de maior crescimento populacional concentrada entre a Ásia e a África. O que aumenta a pressa de preocupar-se com sistemas mais sustentáveis e uma vida mais saudável, vem gerando uma mudança de comportamento na população, que acaba pressionando autoridades, indústrias e marcas a apresentarem posicionamentos mais relevantes e passam a atuar como atores de engajamento socioambiental.


Um caso recente ocorrido no Brasil, fez o mundo voltar a atenção sobre a importância da sustentabilidade. As queimadas na Amazônia brasileira geraram diversas declarações e posições controversas do governo federal, como também de representantes de outros países e grupos ativistas sobre a falta de preservação e cuidado com o “pulmão do mundo”, que poderá culminar em uma catástrofe ambiental que impactará todo o planeta.

A Amazônia é a maior floresta tropical do mundo, com 60% de sua área estabelecida no Brasil. A sua biodiversidade é vasta, com muitas plantas e animais que existem apenas neste local. A densa floresta absorve uma quantidade enorme do dióxido de carbono produzido mundialmente. Segundo estudos, esse gás é o maior causador das mudanças climáticas. De acordo com os cientistas, preservar a Amazônia é vital para combater o aquecimento global.


Países do mundo todo ajudam a preservar a Amazônia através do Fundo Amazônia, criado há mais de dez anos, recebendo recursos mundiais através da transferência entre países para preservação de florestas, com doações generosas da Noruega e Alemanha. Na verdade, os dois países respondem por mais de 99% dos recursos doados, representando mais de R$ 3 bilhões que já financiaram projetos de pesquisa, além da geração de emprego e renda para a floresta, contribuindo com a redução do desmatamento nas áreas beneficiadas.


Todo esse envolvimento internacional ficou em risco nos últimos meses, gerando uma grande crise e preocupação para a preservação desse bioma de interesse mundial. Após uma declaração do ministro Ricardo Salles, com críticas à gestão do Fundo Amazônia, iniciou-se um conflito entre os países que ajudam com os recursos destinados. Um dia antes dessa declaração, a chefe do departamento de Meio Ambiente do BNDES e gestora do Fundo Amazônia, Daniela Baccas, foi afastada do cargo. Em maio, o governo brasileiro anunciou a intenção de usar parte dos recursos do Fundo Amazônia para indenizar proprietários rurais em unidades de conservação, defendendo o aumento da participação do governo nas decisões sobre a aplicação do dinheiro.


Os embaixadores da Noruega e da Alemanha enviaram uma carta em resposta no Dia Mundial do Meio Ambiente. Ao longo de duas páginas, os dois governos defendem o atual modelo de gestão do Fundo e afirmam que futuros projetos devem respeitar os acordos já firmados. Ressaltam ainda que o principal objetivo do Fundo Amazônia é contribuir para a redução das "emissões de gases estufa que vêm do desmatamento e da degradação da floresta”. A Noruega e a Alemanha afirmam que, como a experiência no Brasil tem mostrado, governos individualmente não conseguem reduzir o desmatamento e que esse modelo vem funcionando bem há mais de dez anos. Uma auditoria do TCU concluiu, em 2018, que os recursos do fundo foram aplicados de maneira adequada, o que refuta a declaração e posição do governo brasileiro, sem provas concretas de problemas no processo de utilização dos recursos.


Em agosto, as queimadas em diversos pontos da floresta amazônica ganharam repercussão internacional, o aumento desenfreado dos focos de incêndio atraiu a atenção da sociedade, ongs e governantes de diversos países. O confronto de uma frente fria no sudeste com o calor das queimadas no Centro-Oeste e Norte do Brasil, produziu um efeito que escureceu o céu da cidade de São Paulo no meio da tarde, contribuindo para a obtenção de grande notoriedade. A poluição das queimadas viaja pela atmosfera por milhares de quilômetros e se espalha por toda a América do Sul, impactando o Sudeste do Brasil, que sofre mais pelo número de habitantes, assim como outras grandes cidades, que concentram maior população.


Segundo os dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), o mês de agosto terminou com 30.901 focos de queimadas registrados na Amazônia. O número de incêndios foi quase três vezes maior que o mesmo período no ano de 2018, o que significou um aumento de 196% no comparativo. O total de focos superou em 20% a média histórica de queimadas para os meses de agosto, que era de 25 mil.


Após o fato e a repercussão que já tomava grandes proporções, o presidente Jair Bolsonaro minimizou o impacto dos incêndios, alegando que estavam dentro da normalidade. A medida que a divulgação da afirmação se estendia, sem evidências ou informações concretas, alegou que organizações não-governamentais estavam ateando fogo na floresta para prejudicar a imagem do governo. Bolsonaro disse que o país não tem recursos para combater o incêndio em uma região tão vasta quanto a Amazônia, mas alertou outros países para que não interferissem em suas decisões, dizendo que o dinheiro estrangeiro teria o objetivo de minar a soberania nacional. Contudo, por fim, o governo brasileiro mobilizou os militares para combater o incêndio.


Perante a repercussão gerada na imprensa e redes sociais, diversos protestos foram realizados no Brasil e no mundo, exaltando a ação do governo perante os incêndios. Ocorreram manifestações também em frente às embaixadas do Brasil em Paris e Londres, com a hashtag #PrayForAmazon chegando aos Trending Topics Mundial do Twitter.

Celebridades como Leonardo DiCaprio, Anitta, Demi Lovato, Cara Delevigne e Gisele Bündchen foram algumas das celebridades que usaram as redes sociais e as hashtags relacionadas para comentar o caso. Com o engajamento dos famosos, o mundo começou a dar cada vez mais atenção para a importância da preservação das áreas amazônicas. O ator Leonardo Di Caprio se juntou à Will Smith em ações em prol da floresta amazônica – a marca de sapatos Allbirds, da qual DiCaprio é investidor, se uniu à marca de água Just, de Smitch, e criaram dois calçados temáticos, com edição limitada. Todo o lucro obtido com a venda dos sapatos será revertido para o Amazon Forest Fund, liderado por Leonardo DiCaprio.


Contudo, apesar do engajamento a favor da floresta e do movimento contra o atual governo, o caso também foi utilizado por apoiadores do Presidente para exaltar a sua gestão e atacar os movimentos contrários. Partidários de Bolsonaro responderam com a hashtag #AmazoniaSemONGs, com o objetivo de exaltar e respaldar a declaração do governante brasileiro, que afirmou que as queimadas haviam sido iniciadas por ONGs com a intenção de atacar o seu governo. Na época, essa também foi uma das hashtags de maior reverberação, embora a Agência Pública afirme que sua popularização teve o auxílio de robôs e turbas virtuais, identificando que as tags foram utilizadas por perfis com indícios de automação, responsáveis por manipular as tendências do Twitter.


Em casos de impacto imediato como esse, o Twitter acaba sendo a principal rede social que fomenta a discussão, com grande volume de menções que podem ser monitoradas em tempo real. O Instagram também é uma ferramenta importante para a geração desse volume, com o intuito de alcançar maior conscientização através de conteúdos visuais, postado principalmente por famosos, o que na ocasião também gerou grande exposição. Marcas e empresas também se posicionaram a favor da Amazônia, aproveitando o Buzz para reafirmarem o seu compromisso com a preservação da natureza. A VF Corporation, por exemplo, com sede na Carolina do Norte nos EUA, afirmou que suas marcas – incluindo Kipling, Vans e Timberland – estavam suspendendo a compra de couro brasileiro devido às críticas relacionadas às queimadas. A ADM e a Bunge, duas das maiores comercializadoras do mundo, comunicaram ao mercado que não compram produtos de novas áreas desmatadas da Amazônia e que utilizam satélites de monitoramento de desmatamento para assegurarem suas políticas ambientais. Já a maior produtora de salmão do mundo, a norueguesa Mowui AS, ameaçou interromper as importações de soja provindas do Brasil. Especialistas afirmam que essa repercussão será de curto prazo perante o mercado, já que EUA e países da Europa não devem gerar sanções ou restrições aos produtos brasileiros. Contudo, é inegável que a condução das questões ligadas à sustentabilidade e meio ambiente pelo governo brasileiro tem gerado marcas profundas nas relações internacionais e preocupação da população mundial sobre o futuro, principalmente, no que corresponde a responsabilidade do Brasil sobre o futuro da Amazônia.


Não se pode negar que de agosto para cá, toda a repercussão e as causas que originaram a intensa discussão já se dissiparam, a polêmica foi amenizada e até ofuscada por outros temas, mas também é fato que a percepção negativa gerada para o país e o imbróglio entre o governo Bolsonaro e os governantes dos países que se manifestaram sobre o futuro da Amazônia não será esquecido, estampando a cada novo fato as manchetes de jornais em todo o mundo.


Prova disso, é um estudo divulgado na última semana justamente sobre o tema. Pesquisadores americanos avaliaram um século de informações e projetaram os impactos do fim da Amazônia para o mundo, caso a floresta fosse complemente destruída, consumida pelo desmatamento. O levantamento foi realizado a partir de um laboratório instalado na Universidade de Princeton, uma das mais admiradas do mundo, para estudar o Brasil, e apresentado durante um seminário que contou com o empresariado, cientistas, artistas e representantes da Amazônia. Podemos afirmar que o caos mundial seria grande, tanto na avaliação climática quanto energética, resultando em prejuízos significativos para a América do Sul e, sobretudo, para o Brasil, ainda com a mais positiva das expectativas, a de que a humanidade honraria todos os compromissos afirmados atualmente com a preservação do planeta e as ações para minimizar os efeitos do aquecimento global.

A responsabilidade com o meio ambiente e, em consequência, com o futuro da Selva Amazônica, vai muito além de uma condição política. Defender a área é priorizar a própria nação, a continuidade das espécies, o modo de vida e sociedade como conhecemos hoje. Por isso, tem que ir muito além de um discurso de direita ou esquerda, de partido ou aliança, de órgãos representativos ou ONGs envolvidas, de supremacia nacional ou subjulgo mundial. Assim como muitos cidadãos já enxergaram isso e defendem práticas sustentáveis em seu dia a dia, milhares de empresas também identificaram na defesa do meio ambiente e na adoção da sustentabilidade como projeto de subsistência, muito mais do que uma nova estratégia de marketing, colhendo já nos dias atuais frutos muito significativos em seu desenvolvimento e reconhecimento. Investir em sustentabilidade é bem mais do que investir em sua marca, afinal, quem hoje estaria preparado para viver em um novo mundo onde 80% da energia elétrica, que provém das hidrelétricas, estivesse comprometida?! Portanto, investir em práticas sustentáveis hoje representa se posicionar em favor da própria subsistência e daquilo que ela nos oportuniza. Vamos refletir sobre isso e definir um posicionamento que beneficie o planeta em uma próxima oportunidade, seja de apoio ou crítica, saiba que todas as ações estarão sentenciando o futuro do maior santuário de biodiversidade em uma floresta tropical do mundo.

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